COMUNICADO DA DIRECÇÃO NACIONAL DO PPV - 10 de Setembro de 2012
1. O Governo anunciou na passada sexta-feira, pela voz do Sr.
Primeiro-Ministro Dr. Pedro Passos Coelho, um conjunto de medidas
visando basicamente - e simultaneamente - i) melhorar o défice das
finanças públicas, ii) combater o desemprego e iii) acomodar as
objecções levantadas pelo Tribunal Constitucional à desigualdade de
tratamento fiscal entre o sector público e o privado. Analisadas
atentamente e embora apenas apresentadas nos seus contornos gerais,
entendeu a Direcção Nacional do PPV tomar a seguinte posição:
1.a) O aumento brutal e inaudito de 64% da taxa social exigida aos
trabalhadores activos e aos próprios beneficiários, subindo de 11%
para 18%, representa a mais visível consequência orçamental do
«inverno demográfico» em que Portugal está já mergulhado. Com uma
população cada vez mais envelhecida a despesa social necessariamente
aumenta e a nova taxa de 18%, no fundo, acompanha a evolução do peso
da despesa social sobre o PIB nacional (
18%
em 2010 segundo a PORDATA *).
1.b) A despesa social representava em 2007 cerca de 13% do PIB,
tendo subido 5 pontos percentuais em apenas 3 anos para 18%. Está a
sociedade portuguesa disponível para ver esta taxa aumentar ainda
mais nos próximos anos? Se a nova taxa de 18% representa já um
sacrifício intolerável para tantas famílias, vamos deixar as coisas
entregues ao seu curso natural e chegar aos 28% de taxa social em
2016? Ou vai o governo, pelo contrário, adoptar uma política social
voltada para a realidade das famílias, determinada a reverter não os
sintomas mas as verdadeiras e profundas causas da situação presente:
a crise demográfica, a crise da família, a crise dos valores!
1.c) Uma política assente em valores, não representa nem poderia
representar a imposição a toda a população de um determinado sistema
de valores, por muito elevado que se pudesse considerar; Significa,
isso sim, a referência de um determinado programa de governação a um
modelo, como faz o PPV na sua claramente explicitada inspiração na
Doutrina Social da Igreja. Os eleitores escolhem, democraticamente,
aquele programa e aquelas pessoas que, em consciência, considere
mais adequados aos desafios e exigências da governação durante o
mandato em causa. Seria impossível, num governo participado pelo PPV
uma situação que infelizmente se mantém com um governo PSD - CDS/PP:
perante o quadro de profunda crise acima apenas esboçado, com cada
vez menos nascimentos e quase 100.000 abortos "legais" desde 2007,
com 70% de jovens universitários a projectar sair do país após o
curso, manter-se legislação herdada - e alguma até agravada - da
governação Sócrates, tal como a penalização fiscal das famílias com
filhos, a colaboração forçada dos cidadãos com leis iníquas como a
do aborto a pedido, pago pelo orçamento de Estado, a lei do
Casamento Homossexual, uma lei eleitoral enviesada e pouco
pluralista, a não-renovação da classe política por via da
escandalosa renovação dos mandatos por mais de 30 anos, o domínio de
parte significativa da política e imprensa portuguesas por
sociedades secretas sem qualquer escrutínio público, o garrote da
corrupção que um tal quadro propicia e simultaneamente encobre.
1.d) O PPV insiste junto do Governo num conjunto de propostas que
podem contribuir para melhorar a equidade fiscal e legislativa e
aliviar a pressão sobre as famílias portuguesas com filhos, as que
efectivamente acreditam - para lá de toda a aparência- no futuro de
Portugal e investem no futuro:
- No cálculo dos rendimentos familiares para efeitos fiscais, no
IRS, no IMI e, em última instância, no próprio voto, cada filho
menor deve ser considerado como um cidadão de parte inteira,
valendo não por uma qualquer percentagem variável, mas
exactamente por 1 (um) ;
- Todos os cortes impostos aos cidadãos, do sector público e do
privado, devem ser aplicados sem excepções a todos cargos
políticos e respectivas equipas de assessoria, bem como em todas
as empresas públicas ou participadas pelo Estado sem qualquer
excepção; também a atribuição de ajudas de custo e regalias tais
como telemóvel e carro de serviço devem ser reavaliadas à luz de
critérios de imperiosa e insubstituível "necessidade de
serviço";
- Tendo presente a forte dimensão demográfica da crise
portuguesa e as exigências de equidade da Lei, deve ser suspenso
o pagamento de quaisquer «abortos a pedido» pelo Serviço
Nacional de Saúde: de todos mas começando desde já pelos
"abortos de repetição";
2. A anunciada revisão do quadro de funcionamento da estação de
rádio e televisão RTP trouxe para a discussão as virtudes e
eventuais sombras da Informação/Entretenimento de "serviço público"
em Portugal. Na sua ainda curta vida, o PPV lidou já por diversas
vezes com as três estações de televisão (2 privadas - TVI, SIC - e a
pública RTP) individualmente e em conjunto. Pode, portanto, emitir
sobre esta questão uma opinião informada não apenas pelos seus
princípios programáticos, mas também pela experiência.
2.1) A grande virtude do serviço público de televisão seria a
possibilidade de permitir a todas as correntes da sociedade e, por
maioria de razão, aos partidos legalmente constituídos, a
possibilidade de manifestar o seu pensamento e propostas,
participando num debate democrático plural e pluralista. No plano
cultural e informativo, deve permitir a expressão das diferentes
sensibilidades culturais, estéticas, religiosas e filosóficas,
naturalmente atendendo à respectiva representatividade.
2.2) A realidade actual do serviço público, no entender do PPV, é
confrangedora por onde quer que se analise: a partir do campo da
cidadania, da cultura e artes, da perspectiva geracional mesmo. Os
"donos do plateau" continuam a tratar o espaço mediático como um
feudo de onde impiedosamente expulsam as vozes dissonantes, o que
quer que coloque em perigo os seus próprios interesses, não só
económicos mas também culturais, regionais/locais, filosóficos, etc.
O PPV chegou a ser impedido de participar no debate televisivo dos
"pequenos partidos" nas legislativas-2011 e chegou-se à situação
extrema de os tribunais terem decretado a realização de
debates
a dois de "pequenos partidos" como o PCTP e o MEP, ficando o
PPV e outros à margem de tal possibilidade. A mesma situação se
verificou nas últimas eleições presidenciais, com o candidato
apoiado pelo PPV igualmente impedido de apresentar o seu programa na
"televisão de serviço público". Como pode a Administração ou mesmo o
Director de Informação da Estação de Serviço Público furtar-se a
explicitar os critérios seguidos, mesmo depois de
questionado por
escrito**? Iguais arbitrariedades se podem encontrar no
domínio da cultura. Quem e com que critérios decide as iniciativas
que merecem o apoio da RTP, da Antena 1, da Antena 2 ou da da Antena
3?
2.3) Os cidadãos não podem compreender nem aceitar os níveis
salariais auferidos por alguns quadros da RTP, segundo dados vindos
a público. O PPV considera que tais vencimentos ferem os mais
elementares requisitos de justiça remuneratória e contribuem de
forma significativa para pôr em causa a viabilidade da RTP, exigindo
uma renegociação antes mesmo de se avançar com quaisquer eventuais
iniciativas de concessão/privatização.
2.4) No debate público sobre a RTP veio a lume um argumento, ainda
não desmentido, de que uma RTP do Estado serviria para equilibrar
para o lado do PS o panorama televisivo, supostamente favorável ao
PSD no sector privado. O PPV considera muito importante que uma tal
hipótese seja claramente refutada - com dados objectivos! - pelos
dirigentes da estação pública, sem o que ficará a pairar sobre a RTP
- e de uma forma absolutamente injusta para a esmagadora maioria dos
seus colaboradores - o labéu da parcialidade, da falta de isenção e
de pluralismo.
2.5) Ao longo da semana transacta, a RTP promoveu um conjunto de
conversas com várias personalidades de mais ou menos provecta idade.
A fixação da RTP por personagens da política, do passado (e, já
agora, dos círculos do poder em Lisboa), com destaque para Mários
Soares, Adriano Moreira, Freitas do Amaral ou outros, tem impedido o
desemvolvimento dos movimentos de renovação da nossa vida colectiva
como o PPV, aqueles movimento que precisamente arcarão com a
responsabilidade de resolver as dificuldades deixadas pela actual
clique no poder. A excepção que confirma a regra foi o recente
"movimento dos indignados", da geração que termina os estudos e
emigra. Mas fica esquecida, no distorcido "mapa da sociedade" que
tem servido de base a laboração do nosso "serviço público" toda
aquela faixa imensa que fica no meio, na meia idade ou a meia
distância entre o Terreiro do Paço e o Portugal profundo, com uma
teia de responsabilidades pessoais e profissionais que a impede de
partir, e a falta de "rede social" que a impede de tomar parte
activa no debate e nas mais relevantes decisões colectivas.
Em conclusão: a falta de pluralismo informativo é afinal um sinal da
falta de liberdade e tem consequências nos índices de
desenvolvimento dos países. Não é surpresa que em vários índices da
lista recentemente publicada pelo Fórum Económico Mundial, Portugal
se veja ultrapassado por países como o Azerbeijão, Cabo Verde,
Mauritânia e até o Burkina Faso.
3. O PPV saúda a oportunidade do congresso "presente no Futuro" a
realizar pela Fundação Manuel dos Santos no Centro Cultural de Belém
nos dias 14 e 15 de Setembro. Serão trazidos a debate por esta
Organização não-Governamental temas que o PPV muito tem lutado para
introduzir no debate político, tantas vezes tão desviado (e
desviante) dos assuntos que verdadeiramente interessam aos
portugueses. Por isso destacamos algumas das temáticas a abordar,
convidamos todos os nossos filiados e simpatizantes a participar, na
medida do possível, e analisar as conclusões extraídas das
apresentações e debates: «o futuro inevitável da demografia»,
«Famílias, Trabalho e Fecundidade
Temos menos filhos porque estamos a empobrecer e somos mais
egoístas? O encontro de diferentes olhares sobre como somos, as
mudanças em curso e as perspectivas de futuro da população de
Portugal. A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho,
juntamente com a sua crescente qualificação académica e
profissional, justificará a quebra na fecundidade? Qual o peso dos
factores económicos na decisão para ter um filho??» (
cf. sítio do congresso)
Direcção Política Nacional do PPV
Guimarães, 10 de Setembro de 2012
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notas:
** Invasão do programa "prós e contras" em directo, 1.11.2005
* fonte: PORDATA (clicar na imagem)